PodMAIS #02 – A Interpretação do Texto Bíblico

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Desdobrando o PodSer #02 – A Biblioteca do SER.

Exegese, hermenêutica, homilética… Palavras tão comuns no universo da teologia quanto distantes do cotidiano da maioria dos leitores do Evangelho. Dentro da proposta de uma compreensão profunda da Boa Nova, jugamos importante oferecer uma breve introdução ao tema. O que se encontra a seguir são, antes de tudo, referências básicas para aquele disposto a se apropriar de novas ferramentas, capazes de auxiliar nos propósitos de uma vivência espírita cristã.

Exegese

Em Handbook to exegesis of the New Testament , Stanley Porter e Ken Clarke explicam que “a palavra exegese em si é derivada do termo grego ἐξηγέομαι, que significava literalmente ‘conduzir para fora'”, numa referência à característica central da exegese, que é a de ser um processo por meio do qual o leitor contemporâneo habitue seu pensamento a identificar e extrair o significado primitivo, original do texto bíblico.

Nesse sentido, Gordon Fee acrescenta, em New Testament exegesis: a handbook for students and pastors: “a primeira preocupação da exegese é com a intencionalidade: o que o autor quis que seus leitores originais entendessem?”. Essa costuma ser considerada também a primeira preocupação que deve ter o estudioso das escrituras judaico-cristãs. Afinal, a disposição para estudar a Verdade exige esforço por apreender os sentidos mais precisos que a sua expressão escrita permite alcançar.

O trabalho exegético, afirma Fee, demanda que o interessado seja um bom questionador. “A chave para uma boa exegese está na habilidade de elaborar as perguntas corretas sobre o texto, com a finalidade de se chegar ao significado que o autor tinha em mente”. Para orientar a condução desse processo, o autor propõe 15 passos a serem seguidos pelo exegeta, que passam por pesquisa histórica, análise sintática, estudo dos gêneros literários e tradução adequada das passagens estudadas.

Hermenêutica

Contudo, pondera Douglas Stuart em Old Testament exegesis: a handbook for students and pastors, “a exegese é, patentemente, uma empreitada teológica, e uma teologia que não se aplica à vida do povo de Deus é estéril”. Por isso, para evitar os excessos da teorização pura e da discussão vazia, é que surge a importância da hermenêutica – “do grego ἑρμηνεύω, que significava traduzir, explicar, interpretar ou mesmo proclamar” – em seu sentido mais contemporâneo.

Anthony Thiselton, em The Two Horizons, nos põe a par da questão de forma sintética: “Tradicionamente, a hermenêutica consisitia na formulação de regras para a compreensão de um texto antigo (…). O intérprete era estimulado a começar com a linguagem do texto, incuindo sua gramática, seu vocabulário e seu estilo (…) Em outras palavras, a hermenêutica tradicional começava com o reconhecimento de que um texto era condicionado por um dado contexto histórico. Contudo, a hermenêutica no sentido mais recente do termo começa com o reconhecimento de que o condicionamento histórico tem duas faces: o intérprete moderno, não menos do que o texto, está em um dado contexto histórico, em dada tradição“.

Assim, cabe à hermenêutica, em sentido mais atual, oferecer ferramentas para que o estudioso traga a compreensão do texto em si para o seu contexto contemporâneo. A mensagem apreendida em seu sentido original deve oferecer uma contribuição real para o atendimento das necessidades e demandas espirituais daquele que a estuda hoje. Nessa perpectiva, Grant Orborne propõe, em The hermeneutical spiral: a comprehensive introduction to biblical:

“Estudiosos, desde a Nova Hermenêutica, têm se mostrado satisfeitos em descrever um “círculo hermenêutico” dentro do qual nossa interpretação do texto conduz à sua interpretação sobre nós. (…) Uma espiral é uma metáfora melhor, porque ela não é um círculo fechado, mas, antes de tudo, um movimento em aberto do horizonte do texto para o horizonte do leitor. Em vez de dar voltas e voltas em um círculo fechado, incapaz de detectar o verdadeiro significado, sigo em espiral, cada vez mais perto do significado pretendido pelo texto (…) A tarefa da hermenêutica deve começar com a exegese, mas não está completa até que se observe a contextualização daquele significado para hoje.”

Homilética

Uma vez compreendida a mensagem em seu sentido original e trazida para o contexto do estudioso, chega o momento da partilha. A esse momento, o de repartir o resultado da exegese e da hermenêutica com aqueles que nos acompanham na jornada, chama-se homilia, sendo a homilética o ramo de estudo dessa etapa do processo.

Em Pregação ao Alcance de Todos, Hans Ulrich Reifler explica que “o termo (homilética) deriva do substantivo grego ‘homilia’, que significa literalmente ‘associação’, ‘companhia’, e do verbo homileo,que significa ‘falar’, ‘conversar’. O Novo Testamento emprega o substantivo homilia em 1 Coríntios 15.33 … as más conversações corrompem os bons costumes”.

Já Grant Osborne arremata: “O sermão é um mecanismo de construção de pontes que reúne o mundo antigo do texto bíblico com o mundo moderno da congregação. A contextualização é a argamassa que vincula esses dois mundos, na medida em que o pregador procure ajudar a congregação a entender a relevância do texto para suas próprias vidas. O processo do sermão é um contínuo empreendimento de ligação no qual o pregador ajuda os ouvintes a reviverem o drama e o poder espiritual que o texto tinha para os seus ouvintes originais, de forma que as pessoas consigam entender como a mensagem original refere-se a situações similares em suas vidas”.

A contribuição espírita

Compreendidos esses conceitos, que formam as etapas tradicionais da prática teológica, é importante nos debruçarmos sobre a contribuição espírita para o tema. Em Parábolas de Jesus – Texto e Contexto, Haroldo Dutra Dias põe conhecimento científico e revelação espiritual em diálogo intensivo com o propósito de nos oferecer um olhar espírita consistente sobre a forma de compreender o texto bíblico.

Um dos pontos centrais dessa proposta é a importância do desenvolvimento de sensibilidades apropriadas para apreender nuances e sutilezas características dos Evangelhos: “A sensibilidade aos aspectos formais da lição do Cristo aguça a nossa percepção das questões textuais e literárias envolvidas na formação, estabilização e transmissão dos textos do Novo Testamento. Por sua vez, a sensibilidade aos aspectos materiais daqueles ensinos exigem um amplo mergulho na cultura hebraica, romana e grega da Palestina do primeiro século. Jesus compunha suas peças pedagógicas com elementos extraídos do cotidiano daquele tempo, não do nosso. A referência cultural não é aquela fornecida pela Sociedade ocidental contemporânea. É preciso viajar no tempo. Há dois mil anos… Por fim, urge desenvolver a sensibilidade ao conteúdo.”

O burilamento de tais habilidades passa pelo hábito de se permitir a experiência do Evangelho, tanto pela leitura regular quanto pela busca da aplicação de suas lições ao nosso cotidiano. Além disso, ao tratar da questão textual, o autor nos convida a transcender o olhar tradicional do texto como manifestação da intenção de um autor, que deve ser descoberta, para compreendê-lo como “um processo de produção e recepção comunicativa, analisando-o a partir de sua elaboração, de sua verbalização, de seu planejamento, até sua recepção, processamento e uso, enfim, como um complexo processo de interação”. Processo cujo sentido é “construído pelos sujeitos durante a interação, e não algo que preexista a essa interação”.

Por isso, a compreesão de toda a riqueza de sentidos e significados implícitos num texto escrito passa necessariamente pelo entendimento do contexto em que ele foi construído. “Estamos diante de outra importante sensibilidade, necessária ao estudo do Novo Testamento. Trata-se da convicção de que a linguagem, a interação através de textos, ocorre invariavelmente no interior de determinada cultura. Nesse sentido, é dever do intérprete responsável transportar o leitor ao cenário no qual Jesus viveu, agiu e ensinou, a fim de que escute suas palavras, seus ensinamentos como se fosse um morador daquela região. Ouvir a voz do Mestre Galileu em toda a sua originalidade, vigor, riqueza cultural, para compartilhar com ele a pureza genuína dos sentimentos espirituais superiores.”Dessa forma, ganha o leitor as ferramentas necessárias para extrair da letra que mata o Espírito que vivifica, nas palavras de Paulo, em sua segunda carta aos Coríntios.

Bibliografia:

DIAS, Haroldo Dutra. Parábolas de Jesus – Texto e Contexto. 1ª ed. Curitiba: Editora FEP, 2011.  http://www.fazendobem.com.br/
FEE, Gordon D. New Testament Exegesis: A Handbook for Students and Pastors. 3rd ed. Louisville: Westminster John Knox Press, 2002.http://tinyurl.com/3ftnftr
OSBORNE, Grant. The Hermeneutical Spiral. A Comprehensive Guide to Biblical Interpretion. 2nd Ed. Downers Grove: InterVarsity, 2006. http://tinyurl.com/3caq2bd
PORTER, Stanley E. (Ed.). A Handbook to the Exegesis to the New Testament. Leiden: Brill, 2002. http://tinyurl.com/3m4tfdn
REIFLER, Hans Ulrich. Pregação ao alcance de todos. São Paulo : Vida Nova. 1993.http://tinyurl.com/42v6d9c
STUART, Douglas K. Old Testament Exegesis. A Handbook forstudents ans Pastors. 3rd ed. Louisville: Westminster John Knox Press, 2001.http://tinyurl.com/43vstwe

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