A Nau Terrestre

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Os ventos por vezes desleais do mar da Galileia, bem conhecidos do velho pescador, foram fruto do alerta, mediante a decisão do Mestre em prosseguir a travessia a barco, rumo aos atendidos em necessidade.

O dia se fazia lindo, porém, traiçoeiro. Borrascas, comuns à época do ano, formavam-se sem alerta, surpreendendo embarcações desprevenidas.

“Não temamos o que promana de meu Pai”, afirmou o Cristo, rebatendo as advertências do experiente pescador, em ato contínuo, seguindo na direção do barco.

Acomodado à embarcação, retirou-se o emissário Divino para o descanso, enquanto se seguiam, dentre os apóstolos, comentários inapropriados e maledicentes. Judas chispava frases inconvenientes, e eis que, no decorrer de tal invigilância moral, surge ao longe a inevitável e ameaçadora tempestade, surpreendendo os novos cristãos. Ventos que sibilam, ondas que batem, água que invade, embarcação que sofre e soçobra à borrasca que agride e desespera.

Frente ao perigo e ao naufrágio iminente, mais comentários acusatórios, até que o “bem amado” decide ir-Lhe, rogando-Lhe o socorro, perante a fragilidade e as angústias do momento.

“O que temeis?”, responde o Mestre, como a recordar-lhe os ensinamentos da morte que não existe, da verdadeira vida, do Espírito. Levantou-se o Divino amigo e, como Pastor do mundo, ordenou à paisagem rude, mensageira do desespero, se convertesse em dia límpido e primaveril.

Quão atual se faz esta passagem, interpretada à luz dos dias que se seguem!

Ah, as embarcações dos nossos frágeis e temerosos corações! Olvidamos constantemente da importância de estar próximos do Cristo, no intuito de ficarmos menos suscetíveis às intempéries naturais da vida. Dúvidas que maceram a mente, aflições a solapar a razão e trazer os questionamentos duvidosos sobre si. 

Nos traria mais paz recordar que Ele não dorme, Ele vela, como um Guardião de Deus.

Hoje falaremos sobre os mecanismos de ativação da fé, a qual mantém firme a nau do Espírito diante do trabalho expiatório e provacional, a nos atingir o ânimo como borrascas, trazendo desespero e dúvidas.

Sabemos que nas experiências primeiras do Espírito nos foi dada a centelha da fé. Acompanha-nos ainda, desde então, o livre-arbítrio, definindo as escolhas perante as orientações da bússola da consciência, onde estão insculpidas as Leis de Deus. Perante as escolhas, diante das Divinas Leis, portanto, se nos calcitram responsabilidades e compromissos, sejam em paisagens calmas ou tormentosas.

O exercício do livre-arbítrio, seguindo a porta estreita do trabalho edificante e no desenvolvimento do sentimento em acordo com a consciência, ativa “dispositivos psicológicos protetores”, que garantem a conexão automática com a espiritualidade amiga. O contrário, por conseguinte, tem efeito oposto, esvaindo tais proteções, enfraquecendo o Espírito para os acontecimentos da jornada.

A cada um segundo as suas obras.

As ações no bem, portanto, ativam as antenas mentais de pronto, garantindo o contato espiritual amistoso, aurindo-nos força e estabelecendo o cenário ideal para o exercer da fé, quando chamada ao enfrentamento das dificuldades que elevam ou libertam o Espírito. Desta forma, não seria impreciso afirmar que a manutenção da fé ativa nos corações dá a capacidade de acreditar que Deus nos possibilita o futuro ditoso, apesar dos erros do passado, através do caminho tortuoso do presente.

Seria o corolário do ditado popular “Deus escreve certo por linhas tortas”, também uma referência à fé.

Ou seja, a fé, em nome do Cristo e sempre fortalecida pelas boas ações, nos garante a fortaleza para escolher as aflições do presente em detrimento das facilidades viciosas e irresponsáveis que se apresentam. Buscamos, assim, o Reino Deus, o qual paulatinamente se erguerá no Espírito, garantindo desde hoje a paz a qual tanto buscamos.

Bem-aventurados os aflitos, em Meu nome, pois será deles o Reino de Deus.

Fecha-se um ciclo que, mantido, é autossustentável, suportando a embarcação terrena firme e preparada às borrascas. Conectados ao Cristo, somos resilientes e pacíficos diante dos golpes dos incautos e revoltados. Na aparente fragilidade da paz, testemunha-se, em verdade, a força inabalável da vontade e da resistência.

Tal comprovação verifica-se no testemunho de fé dos apóstolos do Cristo, mediante as violências e ameaças. A citar: a fortaleza de Paulo e Pedro, as lições de amor do Cantor do Evangelho e, mais à frente, o apóstolo Kardec, com as conhecidas dificuldades, abandonado e traído pelos próprios amigos e companheiros de tarefa da Sociedade Espírita Parisiense.

Os que praticam o amor e a abnegação, portanto, mantêm acesa a chama da fé, ativada pelas Leis de Deus, presentes à consciência. Prosseguem diante das crises, pois entendem que Ele não dorme, Ele vela.

Por outro lado, o materialismo apresenta-se repleto de razão e resistências. Consideram-se fortes em si, independem de uma “força exterior”, acreditam que eles próprios se bastam. Porém, desesperam-se aos primeiros golpes que ameaçam as condições as quais lhes permitem o haurir do prazer volátil e perecível da existência, evidenciado-lhes o vazio e a fraqueza interior.

Assim ocorre porque não se pode extrair o amor das doutrinas materialistas, com isso, não se lhes foram criadas as conexões divinas. São, portanto, ao contrário dos que realizam as ações aflitivas do amor em nome de Deus, frágeis diante das dificuldades as quais atingem invariavelmente a todos.

Podemos ainda perceber tal ensinamento do Cristo em outra passagem, diante da mulher da Samaria. Apesar de agir contra a cultura local, aproximando-se da desconhecida, falava o Mestre ao coração da mulher abandonada e infeliz sobre a água da vida, a qual, aquele que a beber, jamais sentirá sede novamente. A analogia é a mesma!

De outra forma, mais lúdica, imaginemos uma planta embaixo de uma fonte de água pura, as boas ações, o trabalho no bem, os quais comumente nos garantem a aflição, ativam a válvula desta fonte, garantindo a água necessária à manutenção saudável da planta, bem como do crescimento firme e seguro desde as raízes, fortalecendo-a diante das pragas e das intempéries.

Já o materialismo consegue haurir apenas algumas poucas gotas dessa fonte, mantendo a planta sempre fragilizada, sobrevivendo, ao invés de vivendo! A planta, então, analogia ao ser perante a vida, cresce frágil e melancólica, quando não, depressiva! Apenas como complemento ao tema, recomendamos o estudo da questão 799, do LE, a qual afirma ser a destruição do materialismo a maior contribuição da Doutrina Espírita ao progresso .

Diante da força haurida das boas escolhas e fortalecidas no sentimento de fé, transporemos as montanhas de aflição, em direção ao Cristo que nos aguarda.

A Nau Terrestre

É neste contexto, então, que nos chega o ápice, o clímax das tempestades no planeta.

A borrasca finalmente chegou, a tempestade se encontra presente diante de nós. Os estragos nas embarcações vistos aos olhos vivos. Existe uma massa de desesperados e apavorados, escravos do medo.

Repousa em nossas mãos, seguidores do Cristo, a responsabilidade da condução e da divulgação da Boa Nova, a qual, por vezes, aflige a mente, porém, bem-aventurados os aflitos em nome de Deus.

Existem, lá fora, irmãos em crises de ansiedade, melancolia, dor. Precisam de uma palavra amiga para haurir-lhes forças e renovar-lhes o tônus do sentimento.

O barco sacode diante das ondas do desespero – o sibilar do pessimismo -, porém, Ele não dorme, vela.

Os apóstolos, ao átimo do desespero, recorreram a Ele. Que assim o seja!

Não nos deixemos cair nas malhas do desespero e do medo, Ele não dorme.

Estamos preparados para as refregas, fomos iniciados nos postulados do Evangelho, bem como na Codificação de Kardec. Armemo-nos da boa vontade galgada no conhecimento. Juntemos os recursos do amor e da boa vontade, as únicas ferramentas necessárias. Mãos à charrua! O Cristo não dorme.

Prossigamos em nossas aflições, ela ainda será companheira por algum tempo, para a construção e fortalecimento da respectiva barca interior, o templo do coração, divino instrumento de Deus.

Temos o quinhão de aflições e enfrentamentos, uma tempestade a cruzar. Coragem, amor e fé!

Que a paz do Cristo esteja em nossos corações. Cantemos em louvor a essa paz. 

Ele não dorme, Ele vive! Ele vive! Ele vive!

Paz a todos.

Pedro Valiati

Sobre o Evento

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Si
Thiago
Alex

Oi Sirlene, o autor do texto é o Pedro Valiati. Ele tem outros textos sendo preparados para publicar aqui. São todos excelentes.

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