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04 – Um choro para São João

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No galinheiro é que se constatava a esquisitice. Quem ali chegasse, topava o espantoso: “– Que coisa é?!” Uns diziam: “– Ave estrangeira!”, ciscando o chão feito galinha. Um outro corrigia: “– Parece galo.” [mas não sendo; e, apois, não cantava em hora regulada]. Verdade única: subia no poleiro para dormir, feito os demais, e era bonzinho, cristão fiel. Quintal da fazenda acolheu um mutum de penacho; esse, sendo primo distante. Reinventou-se, ele assim, na condição de irmão próximo, na descendência dos galos.

Porque galinha, dotô, deixa ao diabo qualquer estranhamento; é de Deus o dar por aceito, acolhido e abraçado, qualquer que venha de fora. Se distinto for; diferente… Ahãn, uê… Mas, tantas penas: aves… e tantas penas: pessoas… Penúria é de todos; os iguais.

04 – Um choro para São João

(Luis Barcelos e Aluizio Elias)
canta Pedro Miranda

Há no galinheiro
Um bichinho estrangeiro
E eu me pergunto: O que será?!
Forasteiro ciscando o chão
Ou um galo cristão
que não cantará?

Quem tá no poleiro
É um intruso fagueiro
Esse estranho querendo ser
Um parente próximo, irmão
Que o ninho deve acolher

Nascido aqui, criado ali
Vivendo acolá
Como ao Deus-dará

Sempre se é
O que pode a fé
O que pede Deus, calado
Acostumado
O sonhador
Sonha o que quer
Mas, se puder
Dá-se ao destino
Um dom divino
A pedra ao lapidador

Mas sabe Deus
Mais sobre os Seus
Porque é capaz
Uma ave audaz

Se quer voar
Deverá saltar
Da quina de algum rochedo
Vencendo o medo
Vence a dor
Arpia, enfim
Voando assim
Solta no vento
Um pensamento
Ou uma canção de Amor

Mutum é quem quer cantar
Mutum é quem quer voar
Quando o que for canto doer
Quando o voar for sofrer

Quando foi mutum, voou
Quando foi galo, cantou
Valente, então, sente
Quem doa a Vida
não vai nos faltar

Mutum que é mutum não diz
O quanto tem que suar
Cansado, ele luta e é feliz
Porquanto a luta é se dar

Se o lobo sai, ele vai
Se o lobo vem, ele sai
Contente, ele entende
Que é boa a Vida
E por que reclamar?


PEDRO MIRANDA – Voz | RAFAEL MALLMITH – Violão 7 cordas | GLAUBER SEIXAS – Violão | LEONARDO PEREIRA – Cavaquinho | THIAGO OSÓRIO – Tuba | ÉVERSON MORAES – Trombone AQUILES MORAES – Trompete | RUI ALVIM – Clarineta | EDUARDO NEVES – Flauta | MAGNO JÚLIO – Pandeiro | MARCUS THADEU – Bateria / Prato e faca | LUIS BARCELOS – Arranjo


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