Publicado em

10 – Bênção

Ouvir Download

Efigênia Aparecida do Rosário: Mãe Figena [velha, pobre, mãe de santo e preta].  Eu não avaliava isso como devia; porque não prezava Mãe Figena. Eu, sendo preconceituoso, e a nobre palavra de meu avô não dando conta disso em mim…

Mas a vida humaniza a condição de quem se excede, dotô. Porque, veja: eu atravessava meu deserto. Era a hora mais ardida de minha existência em menino. Foi nesse tempo [de quando não suportava mais a carga e ninguém vinha me ajudar] que ela chegou em nossas vidas. Era mulher de impor ordem à bandalha – barrer o terreiro da roça; fazer poção com arnica curtida em Paraty. Botar a palha para secar; bater feijão na eira e regar canteiro. Afazeres; coisa de rotina.

Realizar essas obras, toda gente queria, pessoa qualquer fazia. Era história comum…

Digo, contudo, que feitiço da preta era bondade. Ela pôde grandezas. De si, entornou seu riso, suas cantorias, sobre a minha dor. Benzeu a testa de quem sofria maior mal; acendeu o lume do velador [encheu a casa de luz]; foi vereda mansa em nossa travessia. Mãe Figena rezava a regra de Nosso Senhor Jesus Cristo; no risco-traço de Deus-pai… E isso, dotô… já não é história comum; sendo mais: história de amor.

10 – Bênção

(Luis Barcelos e Aluizio Elias)
canta Altay Veloso

Preta barrendo o terreiro
É história comum
Preta dobrando um cueiro
É história comum
Mas, se mãe preta
cede ao filho o seu cobertor…
História de amor

Preta ao sol, secando a palha
É história comum
Preta arribando a cangalha
É história comum
Mas, se mãe preta
benze a testa do sofredor…
História de amor

Feijão cascado, sobre a eira,
É história comum
Pé de sandália na soleira
É história comum
Mas, se mãe preta
for vereda de um viador…
História de amor

Preta regrando a bandalha
É história comum
Preta cosendo a mortalha
É história comum
Mas, se mãe preta
reza a regra do Redentor…
História de amor

Preta atiçando o braseiro
É história comum
Preta regando o canteiro
É história comum
Mas, se mãe preta
risca o traço do Criador…
História de amor

Jacá de milho em palhoça
É história comum
Matungo véio de carroça
É história comum
Mas, se mãe preta
leva a cruz de Nosso Senhor…
História de amor

Qualquer vida, toda sina
É história comum
Qualquer peia de rotina
É história comum
Cana, moenda, bagaço
É história comum
Sendo caso de cansaço
É história comum
Mas, se mãe preta
acende o lume do velador…
História de amor

Ganzá de Angola, de cabaça
É história comum
Arnica curtida em cachaça
É história comum
Mas, se mãe preta
entorna o riso na minha dor…
História de amor

Mas, se mãe preta
cede ao filho o seu cobertor…
História de amor

Mas, se mãe preta
benze a testa do sofredor…
História de amor

Mas, se mãe preta
for vereda de um viador…
História de amor

Mas, se mãe preta
reza a regra do Redentor…
História de amor

Mas, se mãe preta
risca o traço do Criador…
História de amor

Mas, se mãe preta
leva a cruz de Nosso Senhor…
História de amor
História de amor
História de amor


ALTAY VELOSO – Vozes / Arranjo de vozes | LUIS BARCELOS – Arranjo / Violão / Bandolim | BEBÊ KRAMER – Acordeon | ALBERTO CONTINENTINO – Baixo Elétrico | EDUARDO NEVES – Flautas | MARCUS THADEU – Ganzá / Xequerê / Triângulo / Tama / Congas / Caxixi / Agogô / Pandeiro | GRUPO VERBOS DE VERSOS* e TURMA DO SER* – Coro


 

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *